
secretária executiva da Bechtel
por Camila Micheletti
Normalmente ela vai trabalhar de bota de cano longo e salto alto, por causa
do perigo de cobras e outros animais rasteiros; e de saia longa e chapéu,
devido ao calor e sol constantes. Não estamos falando da esposa do Indiana
Jones, mas de Daisi Braz, secretária executiva da Bechtel, multinacional de
origem americana que tem na construção civil e engenharia uma de suas
especialidades.
Paulistana com mais de 20 anos de profissão, Daisi aceitou participar de uma
experiência que seria, no mínimo, inusitada: ser a secretária responsável
por assessorar os executivos do mais novo projeto da Bechtel, que envolve a
construção de uma barragem para uma usina hidrelétrica que será instalada em
Itiquira, cidadezinha do Mato Grosso que fica a 70 km do Pantanal e uma hora
de distância de Rondonópolis, que é uma cidade maior e se parece pelo menos
um pouco com o estilo urbano das capitais.
A profissional conta que tudo começou quando ela, desempregada, resolveu
passar uns dias descansando em Paulínia, no interior do Estado de São Paulo.
Lá ficou sabendo que havia uma vaga para secretária em uma empresa
multinacional, mas que seria preciso passar um certo tempo no
desenvolvimento de um projeto no Mato Grosso. "Tenho mais de 40 anos e sei
como é difícil arrumar trabalho nessa idade, muitas pessoas não valorizam a
sua experiência, por maior que ela seja. Estava mesmo precisando trabalhar e
aceitei a proposta da Bechtel, mesmo sem saber como seria esta nova vida",
explica Daisi.
A secretária já está há seis meses no projeto, que tem outros 1.300
colaboradores e termina em dezembro deste ano. Daisi executa todas as
atividades referentes à secretaria e assessoria aos executivos, como
agendamento de reuniões e viagens, contatos telefônicos, arquivamento e
gerenciamento de informações, traduções, entre outras. Seu chefe direto é um
executivo canadense e ela explica que os profissionais estrangeiros são
muito mais fáceis de lidar que os brasileiros. "Eles são muito mais
práticos, não ficam preocupados com a imagem ou com a opinião dos outros. Se
preciso escrever um memorando, por exemplo, o brasileiro vai querer a
mensagem escrita em letras douradas em papel especial, já o estrangeiro quer
apenas a mensagem escrita, seja ela em um guardanapo ou em um papel
timbrado", comenta.
Como ela se sente em um ambiente como esse? "Parece um canteiro de obras
dentro da floresta", brinca a profissional. Ela conta que não se sente
oprimida pelo fato de ser minoria na equipe, já que pelo menos 95% dos
funcionários são homens. "Eles cuidam de mim como se fosse uma irmã, não
tenho problema algum em ser uma das únicas mulheres do grupo". Como a
barragem está sendo construída em uma área afastada da cidade, foi
construída uma pequena "vila" para os profissionais que estão trabalhando no
projeto, com chalés e uma pequena praça ao centro, onde são realizados os
churrascos que, segundo Daisi, são freqüentes. Muita gente tira os finais de
semana para passear um pouco na cidade e ir ao shopping, uma das únicas
diversões da pequena Itiquira.
Para compensar tamanho sacrifício, os funcionários têm alguns benefícios
extras, como um bom salário, todas as despesas referentes ao deslocamento
pagas pela empresa e também o direito de ir visitar a família em São Paulo,
uma vez por mês, durante quatro dias. "Gosto muito do que faço. Com o tempo
você vai adquirindo tanta experiência que o foi problema ontem, hoje já não
é mais. Acredito que, acima de tudo, a sua necessidade faz você driblar as
dificuldades e ter arrojo para seguir em frente", conclui ela, em meio a
cobras, lagartos e executivos estrangeiros. |